CURSOS DE TEATRO

CURTA CUARTA EM CASA

 

BLOG DA CAZAZUL

 

Rebeca Reis


Como se começa um texto, quando você não é escritora e nem é muito boa em redação? Me perguntei muito isso nas últimas duas semanas, ainda mais quando se trabalha com colegas que são escritoras/escritores e você os admira.


Mas me foi lançado esse desafio depois que voltei de uma das melhores viagem que já fiz na vida e, sim, a viagem foi a trabalho, com a CazAzul. Eu que, pra tirar uma nota boa no Enem, ainda vou aos trancos e barrancos e não desisto, estou com essa missão e resolvi não desistir.


A CazAzul me veio como saída na vida: sabe esses filmes que a gente assiste em que a protagonista anda desorientada nas ruas entrando em uma estação, saindo de outra, sem rumo à noite, aí resolve entrar em um bar, tomar qualquer bebida que desça rasgando na garganta e aí, ali mesmo naqueles minutos do filme, a história começa realmente a acontecer?


Rebeca presente, antes mesmo do chamado de Hannah!

Pois bem, a vida aconteceu em minha história nesses minutos do filme quando Hannah, em um dia ensolarado do Janeiro de 2017, me mandou uma mensagem pedindo pra ir à casa dela. Ela e Adriana queriam conversar comigo, me fazer uma proposta. Pronto, aí é a parte que dá trabalho pro editor, porque é muito sentimento e na edição ele precisa escolher o material melhor para fazer o filme ser bom, a história precisa ser boa pra prender quem assiste.... Pelo menos é o que eu acho, e mesmo que não seja assim, depois da semente que Hannah e Adriana plantaram em mim, nasceu a vontade acadêmica audiovisual, portanto eu vou acabar descobrindo com o tempo se é assim mesmo ou se é de outra forma.


Rebeca fotógrafa

Eu sou fotógrafa, tem uns poucos anos comparados com os anos de atividade dos colegas que eu tenho admiração. Hoje eu acredito quando falo, mas por algum tempo eu não acreditava no meu trabalho a ponto de dizer “eu sou alguma coisa”. Esse empoderar-se profissionalmente também é um aprendizado vindo da CazAzul. Por muito tempo a única coisa que eu tinha era uma esperança de ser algo enquanto meu tempo era vivido atrás das recepções das clínicas conquistenses ou nas lojas do comércio desta cidade. Inclusive eu estava desempregada na época da mensagem de Hannah, na verdade tinha acabado de fazer uma entrevista e seria contratada pra ser vendedora dessas lojas de roupas; e, cá pra nós, eu ia ser uma boa vendedora, Alexandrina bem sabe. Uma vez ela entrou em uma loja que em eu trabalhava e era a minha vez de atender, eu não sei por que, mas eu sabia que ela era cantora, perguntei, dito e feito era mesmo, eu vendi as roupas e ainda ganhei um papo sobre música enquanto isso. Aí descobri que ela conhecia Tereza Raquel, cantora/artista de Conquista, que hoje mais do que naquela época é fonte de inspiração além de ter se tornado amiga. O que, é claro, fez com que Xanda também se tornasse, porque com uma Lua Sagitariana como a minha é fácil fazer amizade como quem faz café ao longo do dia!


Taí algo que o tempo me proporciona e eu sou muito grata: amizades femininas. As mulheres são minha fonte de luz, inspiração, força, garra e vontade. Sobretudo de mudança. Hoje eu confio na mudança e não tenho medo dela, coisa que eu detestava na infância e adolescência.


Às vezes fico imaginando: “e se eu não tivesse recebido aquela mensagem de Hannah?” Minha rotina seria completamente diferente da que tenho hoje. Além, claro, de todo o trabalho que eu tenho feito, do que eu tenho aprendido - e só tem 1 ano e 8 meses que recebi essa mensagem.


Enfim, hoje eu sou! E olha que nem sou muita coisa ainda, mas já sinto todo esse ser que é dentro de mim, crescendo, florindo.

A proposta foi de ser recepcionista e fotógrafa da CazAzul Teatro Escola, mas o tempo é rei e ele é quem demanda as coisas, ao menos na minha vida. Aprendi a ser outras coisas também e eu acho que minha profissão hoje é “faz tudo”, juntando tudo o que eu já sabia fazer com o que aprendi em menos de dois anos, o embolado é mais gostoso e eu gosto de agregar, “faz tudo” é a melhor definição!


Mas é isso, a CazAzul só começou, a vida só começou, eu só comecei. E olhando daqui, já consegui terminar o primeiro texto de tantos que eu sinto surgirem.


Axé!

Awêry!

Gratidão CazAzul.


Rebeca Reis

Setembro/18


Rebeca no palco - novas experiências!

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No meio da pedra, tinha um caminho

Não chega a ser original a máxima que venho proferindo ao longo dos últimos anos sobre datas importantes no nosso calendário anual. Quem me ouve balança a cabeça, sorri e às vezes até estala os dedos, como quem encontra uma boa ideia, concordando com minha sentença: “Há os que esperam o ano todo pela chegada do carnaval. Há os que preferem as festas juninas. Há os que anseiam pela chegada do Natal. E tem eu, que espero pela Fligê".


Há algo de mágico nessa Feira Literária. Do momento em que me certifico de que vou participar até a viagem de ida, pelas transformadoras estradas da Chapada Diamantina, tudo me toca, tudo me atravessa, tudo me melhora. Preparar-me profissionalmente para ela envolve dedicação, pesquisa, empenho. Mas o preparo emocional, pessoal e particular, ah... esse beira o sagrado. A minha alma sabe que vai pra Mucugê. Ela sente que o momento está chegando. Ela (pre)sente o cheiro de pedra.


E eis que empreendemos a tão esperada viagem. Estar na Chapada é girar o botão, é deixar-se curar pela natureza, pelo ar gelado e puro, pelas delicadezas de sua cultura, pela hegemonia da pedra. Grandes e imponentes rochas jurássicas nos avisam que estamos chegando. Disciplinadas plantações de café compõem a paisagem.


Gigantescas e seculares como as rochas que assistem a história passar ou miúdas e incontáveis como os pedregulhos que gemem sob nossos pés, as pedras assistem à nossa chegada: nas paredes das casas, nas pontes, nos muros, nos balcões de bar. Molduras, porta-joias, colares, anéis. Por todo lado, a pedra se impõe. Tudo em Mucugê nos “apedrece”. Buscamos, imediata e incessantemente, por uma cachoeira, essas pedras que choram por anos a fio, para que Oxum nos massageie os ombros que parecem carregar o mundo. Para que nos lave a alma.




E eis que em 2018 as pedras de Mucugê nos apontam um caminho de literatura e resistência. Conceição Evaristo, essa que há tanto tempo já nos diz das lindezas de sua dura caminhada (pela noite escura), ao subir para agradecer pelas justas homenagens, nos arrebata com sua majestade e nos oferece, ela mesma, pequenas pedras preciosas:


Sobre a obra composta por João Omar e Elton Becker, inspirada em sua obra, executada em sua presença e entregue a partitura:

“Vocês me deram motivo de escrita. A música ultrapassa fronteiras. Ela exprime a dor. Não há música sem corpo. O corpo na música é a dança. (...) A literatura é estática. Mas é o que eu sei fazer!”

Sobre a universalidade de sua literatura:

“Na literatura universal há textos lindo que até me emocionam, mas nos quais eu não me caibo. (...) ao ver que o meu texto contaminava várias pessoas: homens, mulheres, negros, brancos, jovens, pessoas maduras, eu fui percebendo que esse texto seduz, que ele convoca a todos e todas, independente de sua experiência, que ele toca a universalidade dessas pessoas, eu me dei conta: quem está fazendo literatura universal somos nós!”

“Eu sinto muita alegria em ver tantas pessoas lendo meus textos. Ver uma garota de 15 anos me agradecer pelas palavras que escrevo é emocionante. Eu fico muito feliz. Ninguém escreve para si só. Não me venham com essa. Se publicou, é porque quer ser lido.”

E encerra, digressando sobre o silêncio:

“Eu gosto de pensar o silêncio não como mutilação ou ausência da voz. Eu entendo o silêncio como potência. O silêncio como lugar de estratégia de criação, como tática. Nem sempre se pode dizer agora. Nem todos vão poder escutar. Então a gente faz silêncio. Ou geme. O gemido é o momento da criação. O silêncio nem sempre é esquecimento. É a espera do melhor momento para se dizer.”

Pois eis, que em meio a toda essa beleza, a tanto encantamento e aprendizado, a Fligê ainda me reservava mais: naquele centro cultural lotado de mulheres lindas, negras, fortes, com sorrisos ora largos, ora serenos, ouço, ao meu lado, baixinho, uma voz doce. Botei atenção. Era uma mãe, muito jovem, que respondia à filha que, vendo a imagem do fundo do palco, perguntou à mãe porque ela estava suja. A jovem mãe, paciente, tranquila, com muita ternura e sem esboçar nenhum traço de julgamento ou repreensão ao comentário da filha, explicava que ela não era suja, que aquela era sua cor, a cor negra. Que elas mesmas eram negras também. Explicou calmamente que aquela era Conceição Evaristo, uma grande escritora, que tinha a pele um pouco mais “aterrada” que a delas, mas que era, como elas, negra. Todas elas lindas. A menina sorriu. Estava aberta a Feira Literária de Mucugê 2018!


Quem tiver ouvidos que ouça. As palavras, as pedras, o silêncio.


Adriana Amorim

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