DESTAQUES

CURTA CUARTA EM CASA

 

13 Maio

Rodrigo Dourado

CURTA CUARTA EM CASA #3: TEATRO À DISTÂNCIA: O PARADOXO NECESSÁRIO✨
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O isolamento social que estamos enfrentando e a recente desintegração do espaço físico da CazAzul mostraram a urgente necessidade de construirmos novas formas de fazer teatro, tanto do ponto de vista da PRODUÇÃO quanto da FORMAÇÃO nesta arte da cena. Para refletir sobre o ensino de teatro nas atuais circunstâncias, Adriana Amorim convida o  Professor da Universidade Federal de Pernambuco, ator, diretor e dramaturgo RODRIGO DOURADO. 🤩
👉🏽Lembrando que estaremos em um novo horário: às 17h desta quarta-feira, 13 de maio.

BLOG DA CAZAZUL

 

ADRIANA AMORIM*



Eu já tive o prazer e a honra de ver em cena grandes atrizes. Laura Cardoso, Arlete Sales, Maria Alice Vergueiro, Kécia Prado, Iami Rebouças, Marieta Severo, Andreia Beltrão, só pra citar algumas que lembrei numa busca muito breve e irresponsável pela minha memória. E essas foram, sem dúvida alguma, experiências inesquecíveis. Mas não tenho receio nenhum de afirmar que nada, absolutamente nada se compara ao que pude experimentar ontem ao ver em cena Chica Carelli como a matriarca protagonista do avassalador espetáculo “Por Que Hécuba” dirigido por Márcio Meirelles. Escrevo agora esse texto, tentando juntar os cacos que restaram de mim depois daquele atropelamento.


Certamente o contexto da fruição em muito interferiu para potencializar a experiência. Estando eu fora de Salvador há sete anos, depois de “ter sido soteropolitana” por quase quinze e tendo realizado aqui minha formação acadêmica completa e boa parte da minha formação estética, regressar à Cidade da Bahia e visitar-lhe a vida cultural e artística é sempre uma grande emoção, para dizer o mínimo. Andar, agora como turista, pelas ruas nas quais quase me vejo com um espectro que vagueia com o fardo dos problemas cotidianos a pesar nos ombros, que olha absorta para o horizonte pelas janelas embaçadas dos ônibus, que sai dos mercados, pega os filhos na escola... toda essa história vivida que passa diante de mim, me converte numa observadora sui generis da cidade. E ontem foi um desses dias. O contato com o universo peculiar do Porto da Barra durante o dia, a passagem pelo circuito Avenida Sete/Carlos Gomes/Passeio Público para chegar até o templo do Teatro Vila Velha se revelaram num cuidadoso prólogo do espectador, algo que viria a potencializar a característica “pessoal e intransferível” da experiência de fruição. Sentada naquela poltrona, esperando o começo do espetáculo, eu já era uma versão inédita e especial de mim mesma.


Começado o espetáculo, logo se revelou sua potência. Um elenco que, apesar de numeroso e jovem, demonstrou de cara uma força cênica e uma conexão fundamentais para estruturar a base na qual seria erguida a fortaleza donde se veria surgir o núcleo da história, donde se daria o desfile do mito. Música e imagens iam criando a atmosfera para o que aconteceria diante de nós nas duas horas seguintes. Loiá Fernandes, a jovem Meniki Marla e o experiente Lúcio Tranchesi deixam claro que o elenco sabe o que faz e vai se revelar um dos grandes responsáveis pela grandiosidade daquele evento teatral. Tudo bem até aí. Eu já estava nas mãos deles. Entregue.


Mas, eis que surge ela. Uma rocha, uma tocha. Um acontecimento. Voz de trovão, olhar de águia. Anunciada por dolorosos uivos de cadela ferida, surge Hécuba. Eu não sabia quem era a atriz. Não recebemos o programa da peça na entrada, de modo que fiquei me perguntando: “É Chica?” Mais magra, mais envelhecida do que a Chica da qual eu me lembrava, quando frequentadora do Vila e mesmo como participante do projeto “O que Cabe Nesse Palco” no distante ano de 2002, oscilei entre a razão que buscava reconhecer-lhe os traços e o sentimento de quem acompanhava a história. Sim. Era Chica. Era a grande Chica Carelli, maior do que sempre.

Dali em diante, deu-se o estrago em mim: invadida por todos aqueles elementos cênicos magistralmente ordenados por Márcio Meirelles, esse mestre incansável em sua melhor forma, eu já girava tonta alternando entre o impacto sensível dos estímulos e a consciência do discurso político e do manifesto humano que se desenrolava em minha frente. As críticas, as denúncias, as metáforas (ora sutis ora evidentes) não davam descanso ao espectador. A consciência rítmica cuidadosamente construída para não perder o espectador, o tempo de manutenção de cada sentimento provocado na plateia. O equilíbrio perfeito entre o dionisíaco e o apolíneo, através do pleno domínio das ferramentas próprias do teatro, assunto e meio daquele exercício.


E no centro de tudo, ela: Não apenas quando demonstrava sua força e dor, mas também (e talvez mesmo, sobretudo) quando era doce, leve, serena, se é que se pode falar desses atributos naquele contexto. Quando falava baixo, mais do que isso, quando sussurrava, sentada, aparentemente inerte, era quando ela mais me atravessava.


Dois momentos foram para mim incomparáveis, inesquecíveis, indizíveis: Quando ela recebe seu filho Polidoro e conversa com ele com a serenidade de uma rocha que só as mães (e possivelmente só as mães que já velaram um filho) possuem. E depois quando ela, ainda e sempre como mãe, nos conta a história da criação do mundo, nos revela que fomos urdidos sobre a marca indelével do amor e se pergunta, inconformada, por que tanto ódio? Por Que, Hécuba? Eu também sigo me perguntando...


Daí, meio inerte, me restou ir ao camarim. Cumprimentar o elenco, entre amigos, conhecidos e desconhecidos, experientes e iniciantes. E encontrar-me com ela. Chica Carelli. Dar-lhe um abraço sincero de gratidão, verter-me em lágrimas pela felicidade de ter estado ali, naquele momento e lugar, de compartilhar de tal profissão, essa que nos rasga e nos convoca diária e inapelavelmente. Dizer parabéns era tão pouco. Era quase constrangedor. Apenas agradeci, porque tenho pra mim que depois do amor, de quem deve ser irmã, a gratidão é o maior sentimento que existe.


Por isso, sou grata a toda a equipe de artistas envolvida nesse projeto. Ao grande mestre Márcio Meirelles, de quem sempre fui declarada admiradora, da pessoa e do artista. Ao Teatro dos Novos, à Universidade Livre Vila Velha - dois projetos necessários, para dizer o mínimo. Inspirações para essa CazAzul que tenta dar vazão a tantos desejos meus de seguir vivendo essa sina de ser artista.


Chica Carelli, ontem eu vi a maior e melhor performance de uma atriz. Por isso e por tudo o que isso significa, obrigada. Dezenove vezes. Vinte vezes. Obrigada.



*Adriana Amorim é doutora em Artes Cênicas pela UFBA, e idealizadora da CazAzul Teatro Escola.

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Por Silvana Ribas


Entre os dias 18 e 19 de Junho a 5ª Mostra Culte (Curso Livre de Teatro) reuniu espetáculos de teatro infantil, juvenil e adulto no palco do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima. A mostra foi promovida pela CazAzul Teatro Escola. Esse espaço existe em Vitória da Conquista desde 2016 e conta com o trabalho de artistas da área de Teatro, Cinema, Fotografia entre outras linguagens. O projeto da CazAzul vem alcançando o público com propostas multifacetadas.



Espetáculo "A cidade dos livros", pela turma Infantil de Teatro. Direção: Yarle Ramalho. Assistente: Álvaro Souza. Foto:Vale Assessoria.

Assim, na primeira noite a platéia apreciou três espetáculos: A Magia das Cores (Priscila Amaral); A Cidade dos Livros (Yarle Ramalho) e os Saltimbancos (Isac Flores). Com elencos formados por crianças, os espetáculos foram permeados pelo imaginário, histórias e fantasia, características que alinhavaram a dramaturgia. O espectador se deparou com sorrisos, olhos brilhantes e muita energia em cena, embarcando em cada palavra dita pelos pequenos.


Elenco do espetáculo "A magia das cores". Direção: Priscila Amaral. Assistente: Joanne Vale. Foto:Vale Assessoria.

Entre uma cena e outra foi possível visualizar o cuidado com os adereços utilizados: guarda-chuvas, caixotes, banquinhos de madeiras, tudo estava entrelaçado e contextualizado. Percebeu-se como as crianças estavam seguras ao subir e descer dos caixotes, estabelecendo, inconscientemente, uma relação com o espaço. Em “A Magia das Cores”, que teve um elenco formado por crianças entre 4 e 10 anos, acredito que a maioria estava pisando pela primeira vez no palco de um teatro, não possuindo intimidade com texto decorado, projeção de voz, prontidão e auto-confiança, diante disso, utilizar dos repertórios imersos no cotidiano da criança, como brincadeiras foi um fator que enriqueceu o trabalho.


“A Cidade dos Livros” foi um espetáculo que arrebatou o coração do público com a alegria das crianças e com uma reflexão profunda sobre o desaparecimento dos livros. Os signos do espetáculo se encarregaram de mostrar aos pais presentes, a importância da leitura no cotidiano da criança.


Espetáculo "Os Saltimbancos", pela turma Juvenil de Teatro. Espetáculo dirigido por Isac Flores. Foto:Vale Assessoria.

Encerrando o primeiro dia de mostra com o clássico “Os Saltimbancos”, a turma juvenil contou a história de seis bichos que lutam pela liberdade, lembrando ao público que a luta pela liberdade atravessa gerações. “Os Saltimbancos” ainda tocou na idéia de alimentar os sonhos mesmo diante de uma vida injusta.




Liberdade, aliás, foi um tema que reverberou na 5ª Mostra Culte. A segunda noite foi marcada pelo espetáculo “Curral Grande” (Leo Sandes) e “Canto e Grito Liberdade” (Vicente Di Paulo). O primeiro trata da criação de campos de concentração, no Ceará em 1932. O segundo fala da liberdade em perspectivas distintas, sobre fatos que marcaram o mundo e, de todo modo, histórias muito próximas da atualidade.


Espetáculo "Curral Grande", pela turma Juvenil-adulto de Teatro. Direção: Leonam Sandes. Assistente: Kendra Silveira. Foto:Vale Assessoria.

“Curral Grande” teve como participantes os atores e atrizes da turma juvenil/adulto e “Canto e Grito Liberdade” contou com a participação de um elenco adulto.

O texto “Curral Grande” é de autoria de Marcos Barbosa. Tenho consciência da adaptação para o espetáculo, mas a fruição me permite entendê-lo como um texto difícil. Sendo assim, as diferentes versões de um mesmo acontecimento foram apresentadas. A dinâmica do espetáculo por vezes era interpelada pelo silêncio, que trazia um desconforto ao analisar a situação trazida pela grande seca. O contexto da formação dos campos de concentração no Ceará trouxe à tona os vestígios daquele momento e a narrativa imprevisível potencializou o espetáculo, conduzida pelo humor em momentos pontuais e finalizando com a reflexão sobre a migração e como o Nordeste foi prejudicado.


A iluminação com lanternas e trilha sonora na cena do trem, trouxe a consciência para a qualidade de movimento de corpos em viagem. O figurino auxiliava o espectador a fazer a leitura das cenas, identificando as personagens.


E por falar em figurino, este, merece ser destacado em “Canto e Grito Liberdade”. O palco foi tomado por tons de verde exército, os corpos transitavam de um extremo ao outro do palco e a cor uniformizava o instante.


Espetáculo "Canto e grito liberdade". Direção: Vicente di Paulo. Assistente: Ariel da Mata. Foto: Vale Assessoria.

A presença cênica permaneceu do inicio ao fim, não existe uma definição para o conceito de presença, mas possibilidades que trazem essa noção à tona. A presença está relacionada em como você domina o corpo-espaço-tempo, e como o artista se relaciona com um emaranhado de informações como, o canto, o texto, o movimento, a dança, entre outros. Desse modo, a forma como o corpo se dispôs no espaço, o engajamento entre uma ação e outra, evidenciam a qualidade de presença. Fatores que ativam a noção de presença e que foi possível perceber no referido espetáculo:

(1) O olhar para travar a relação com o público e os pares;

(2) Consciência Corporal;

(3) Consciência da respiração;

(4) Domínio espaço-tempo;

(5) Qualidade técnica;


Deste modo, o espetáculo dialoga com questões da atualidade, voltando o olhar para a forma com que os corpos foram aprisionados em contextos diferentes. Em alguns momentos a cena é densa em outros ela é cantada, dançada, carnavalizada e todas elas para dizer: “É preciso cantar, gritar, falar!”


Participar deste momento de delicadeza e cuidado instaura novos modos de se relacionar, através do afeto, da memória e da fantasia com a compreensão de que esse espaço é um ambiente de exercício constante. Esse ciclo foi concluído e tão logo um novo florescerá. Assim sendo, desejos de vida longa e prosperidade a Cazazul Teatro Escola.

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