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É no absurdo que o Curta Cuarta ressurge e que a CazAzul se revigora

Por Jade Dias e Raffaela Pacífico


Arte e educação como resistência ao ódio e à intolerância é a bandeira que o Projeto da CazAzul Teatro Escola agita desde seu surgimento em 2016. Sendo assim, a proposta não poderia ser diferente na primeira edição da 3ª Temporada do Curta Cuarta: o Teatro do Absurdo, colocando em evidência os 30 anos da morte de Samuel Beckett - dramaturgo e escritor irlandês - e os 55 anos do início do período de exceção no Brasil.


Foto: Yan Barros


Roque Mendes Prado em visita à Caza, acompanhado de seu “pequeno” João Gabriel, aponta a arte do Teatro-Escola como válvula de escape e reflexão da realidade, “no momento de crise que a gente está, a arte é uma maneira de você criticar e refletir. Eu venho aqui pra ver o que o corpo e a mente produz”.


Na noite de abertura desta terceira temporada, o Curta Cuarta apresentou algumas transformações, além das noites temáticas e a participação do público nas leituras dramáticas, a mais evidente é a mudança de endereço - a nova sede da CazAzul, que está localizada na Av. Rosa Cruz, 855.



Foto: Yan Barros

João Pedro Santana, mestre de cerimônia do Curta Cuarta, é porta voz da satisfação da equipe por ter conseguido corporizar o espírito de descontração e intimidade da antiga Caza com o público. As salas continuam batizadas pelos mesmos nomes, a biblioteca abastecida e a “Terra do Nunca” (espaço lúdico) instigante.




A cena teatral “Vai e Vem” de Samuel Beckett , dirigida por Adriana Amorim que, além de dirigir, contracenou com as atrizes Gisele Ramos e Lorena de Souza, deu início às performances artísticas-educacionais da noite. Numa cena curta, chamada de dramatículo, a apresentação do texto do dramaturgo Beckett inovou enquanto linguagem teatral.


Foto: Yan Barros

Adriana descreve seu trabalho com o Teatro do Absurdo a partir da ideia de que “estamos vivenciando grandes dificuldades de comunicação, falta de empatia, muito horror. Algo muito parecido com o começo do que desembocou na Segunda Guerra Mundial, na ascensão do fascismo, do nazismo, do ódio, da perda de direitos e da falta de comunicabilidade”.


Micael Aquillah, parceiro antigo da CazAzul, além de rever a equipe, aponta a importância do novo e da experimentação: “aqui é o lugar onde eu posso desconstruir a minha visão leiga do teatro e sentir a experiência junto com as pessoas, revendo os amigos”.



Foto: Yan Barros

O Teatro do absurdo é um movimento artístico-cultural que surge a partir da década de 1950 na França, como reflexo desse e de outros momentos trágicos da humanidade. “Então como a história está aí para nos ensinar, antes que tudo chegue à um ponto insustentável, a gente vai falar disso, mas falar com arte. A gente celebra o teatro do absurdo como uma oportunidade de agir antes que o horror vença”, salienta Adriana ao incorporar os ideias e valores da equipe multidisciplinar da CazAzul. Diante disso, “Vai e Vem” do texto é construído na ação dos personagens, na crise do sujeito e nas movimentações repetitivas das três mulheres.



As atrações da noite deram seguimento com a mostra de três curtas de autoria de Samuel Beckett. Os curtas são do projeto Beckett on Film, cujo objetivo era transformar as peças teatrais de Beckett em obras cinematográficas (os primeiros curtas passaram a ser publicados em 2001). Algumas das obras do dramaturgo levam consigo a existência de fortes sentimentos humanos, solidão e angústia, perceptíveis nas obras Breath, Play e That Time, exibidas na noite, além de criticar a modernidade. Beckett é considerado um dos dramaturgos mais importantes da segunda metade do século XX. Produziu obras para o teatro, rádio, televisão, cinema, poesias, entre outras linguagens. Ele é, até hoje, um dos principais escritores do Teatro do Absurdo.


Foto: Yan Barros

Compondo a metamorfose da “Caza”, as leituras dramáticas de fragmentos dos textos “O arquiteto e o imperador da Assíria”, de Fernando Arrabal, e “A cantora careca”, de Eugéne Ionesco, realçaram o caráter de experimentação do ambiente de vivências cênicas ao temperar a atividade estimulando a participação do público. Nove visitantes foram sorteados para ler e interpretar as cenas mencionadas. Mariana Alves Padre, audaciosa participante do sorteio, definiu a sua experiência teatral, como algo que “apesar do tempo ser bem curto, e a gente ter que dar aquele improviso, foi muito bom. Na hora fiquei um pouco ansiosa, mas tudo correu de forma tranquila”.



Foto: Yan Barros

O pocket-show da noite ficou por conta de Vitor Lopes, que se apresentou pela terceira vez na Caza, e foi o encerramento despreocupado que a noite parecia pedir. Vitor apresentou um repertório variado de artistas brasileiros mais tradicionais mesclados com vozes e sons mais contemporâneos. De Rita Lee à Rubel, o público embriagou-se com a música agradável. “Teve música, teve curta, teve peça. Foi bom poder conhecer o Teatro do Absurdo, que eu nunca tinha escutado falar. Foi bom ter visto pessoas da plateia no palco fazendo a leitura. Foi muito massa”, afirma Jamile da Silva que, sem pretensão, resume bem o promissor retorno do Curta Cuarta.


** Texto: Jade Dias e Raffaela Pacífico

(Estudantes do curso de Jornalismo, da Uesb) **Fotos: Yan Barros (fotógrafo convidado)