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Bacurau em Conquista: O cinema, a universidade e o shopping

Por Adriana Amorim*




Ao subir as escadas rolantes daquele cinza e gélido Shopping Boulevard, rumo ao Centerplex, senti que havia algo diferente na atmosfera local. Era um povo colorido, risonho, barulhento até, que ia chegando primeiro de forma tímida e depois com crescente empoderamento. “A administração do Shopping vai concluir que é só colocar filme brasileiro alternativo em cartaz que o shopping é invadido por gente pobre, preta e sexualmente diversa. Por essa gente estranha. Esses artistas.”, pensei. Pouco a pouco, aquela gente que consome e produz arte, que geralmente se encontra nos espaços alternativos da cidade, foi se agrupando ali naquele paraíso do metal e do vidro, quase formando uma tribo.



No meio daquela miríade de figuras inusitadas, distintas do público habitual do shopping, destacava-se um grupo específico. Altamente interessados na pré-estreia nacional de um filme internacionalmente premiado, produzido por uma equipe nordestina, estavam os estudantes do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, a UESB. E não era pra menos. Tanto ânimo se justificava facilmente. Há anos sendo oprimidos pelo fato de a cidade em que moram (e estudam cinema) somar uma dezena de salas de projeção que, no entanto, exibem sempre um único e inalterável estilo de filme (o filme comercial) - chegando ao absurdo de termos os mesmos títulos exibidos nos dois shoppings ao mesmo tempo -, este grupo de estudantes parecia estar vivendo um sonho. Em poucos minutos, iriam assistir a uma produção brasileira, “alternativa”, numa grande sala de projeção e não em suas tevês ou smartphones, via torrent ou download, como tem sido ao longo dos anos. Iam viver os dois prazeres que o cinema pode (e deve) proporcionar: o deleite da apreciação da obra e a experiência coletiva de ver um filme no espaço físico do cinema, esse lugar social por natureza, com direito a escurinho, tela imensa e a saborosa (mas barulhenta) pipoca. Risos, sustos e dores vividas coletivamente.


E que lindo encontro foi esse. Professores e professoras, calouras e calouros, veteranas e egressos pareciam ter se encontrado numa aula da saudade às avessas, posto que o encontro mirava para um futuro desejado e não para um saudoso passado.

Riam ao se encontrar, abraçavam-se (como só gente de arte sabe abraçar), faziam piada com o fato de se ver ali, juntos, mais alunos de cinema do que nos corredores da UESB. Os mais novos pareciam evidentemente encantados com a certeza de que estavam no lugar certo, de que escolheram o curso certo, de que enfim encontravam uma comunidade com a qual se identificavam, pondo fim à solidão de ser um estranho no ambiente familiar. Os mais velhos pareciam expressar a satisfação de não terem desistido e de seguirem lutando, agora com a experiência de ver, dali a pouco projetada na imensa tela branca, o sucesso de um igual. “Identificação” e “Idealização” aristotélicas sendo vividas naquele evento. O sucesso daqueles produtores nordestinos era o sucesso de todos nós. Era como uma promessa de que vale a pena seguir lutando, mesmo diante de tantos desatinos e constantes ataques à nossa simples existência. E olha que ainda nem conhecíamos o filme em toda sua plenitude.


Lá dentro, apagadas as luzes, encerradas as propagandas, deu-se o encontro com a magia do cinema.


Todas as expectativas foram altamente alcançadas. (As minhas, superadas!). Uma obra de arte completa, preciosa e precisa. Um trabalho maduro de uma equipe que segue produzindo, estudando, criando ininterruptamente: um roteiro primoroso, irretocável; a utilização cirúrgica dos elementos fílmicos; a consciência do trabalho do elenco; a tomada de uma posição político-ideológica; e, sobretudo, a coragem de assumir aquilo que há de mais puro na experiência artística: o risco. Tudo isso fez daquelas mais de duas horas de projeção uma experiência inesquecível, transformadora, catártica. Aula melhor que essa, estou por ver.



Quem me lê sabe que sou patética (do Pathos grego, não necessariamente do Pateta da Disney) em relação às minhas experiências estéticas. Falo delas como se falasse de uma experiência transcendental, porque assim as vejo, assim as vivo. Sou atravessada por elas porque delas sou feita e a elas me entrego. Antes, durante e depois. Inteiramente.


Queria falar mais do filme (que filme, minha gente, que filme!), mas acho que falar de estudantes de cinema nordestinos que se encontram num cinema de shopping para assistir a uma produção nordestina como eles, sobre a resistência desse povo que são eles próprios (porque artistas, porque pretos, viados, nordestinos) é também falar desse Bacurau incrível que empreendeu um vôo rasante sobre nossas cabeças, nos organizou enquanto coletivo, nos assustou, nos revelou e nos reuniu numa consciência coletiva que reconhece o quanto é preciso resistir. É a resistência, e apenas ela, que nos garantirá alguma chance de seguirmos existindo. Aqui, agora, hoje.

Naquela sala de cinema, naquele inóspito shopping center, há de se ter começado uma pequena revolução em terras de Glauber Rocha. Que as carteiras da universidade saibam potencializar a força do que foi vivido naquela pré-estréia, numa cidadezinha do interior de um estado qualquer desse surpreendente universo chamado Nordeste. Que nossa história nos fortaleça! Que Bacurau nos inspire!



*Adriana Amorim é doutora em Teatro e professora do curso de Cinema e Audiovisual da UESB. É idealizadora da CazAzul Teatro Escola.


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