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Caminhando entre imagens, cores e a magia... foi assim que teve inicio a 5ª Mostra Culte

Por Silvana Ribas


Entre os dias 18 e 19 de Junho a 5ª Mostra Culte (Curso Livre de Teatro) reuniu espetáculos de teatro infantil, juvenil e adulto no palco do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima. A mostra foi promovida pela CazAzul Teatro Escola. Esse espaço existe em Vitória da Conquista desde 2016 e conta com o trabalho de artistas da área de Teatro, Cinema, Fotografia entre outras linguagens. O projeto da CazAzul vem alcançando o público com propostas multifacetadas.



Espetáculo "A cidade dos livros", pela turma Infantil de Teatro. Direção: Yarle Ramalho. Assistente: Álvaro Souza. Foto:Vale Assessoria.

Assim, na primeira noite a platéia apreciou três espetáculos: A Magia das Cores (Priscila Amaral); A Cidade dos Livros (Yarle Ramalho) e os Saltimbancos (Isac Flores). Com elencos formados por crianças, os espetáculos foram permeados pelo imaginário, histórias e fantasia, características que alinhavaram a dramaturgia. O espectador se deparou com sorrisos, olhos brilhantes e muita energia em cena, embarcando em cada palavra dita pelos pequenos.


Elenco do espetáculo "A magia das cores". Direção: Priscila Amaral. Assistente: Joanne Vale. Foto:Vale Assessoria.

Entre uma cena e outra foi possível visualizar o cuidado com os adereços utilizados: guarda-chuvas, caixotes, banquinhos de madeiras, tudo estava entrelaçado e contextualizado. Percebeu-se como as crianças estavam seguras ao subir e descer dos caixotes, estabelecendo, inconscientemente, uma relação com o espaço. Em “A Magia das Cores”, que teve um elenco formado por crianças entre 4 e 10 anos, acredito que a maioria estava pisando pela primeira vez no palco de um teatro, não possuindo intimidade com texto decorado, projeção de voz, prontidão e auto-confiança, diante disso, utilizar dos repertórios imersos no cotidiano da criança, como brincadeiras foi um fator que enriqueceu o trabalho.


“A Cidade dos Livros” foi um espetáculo que arrebatou o coração do público com a alegria das crianças e com uma reflexão profunda sobre o desaparecimento dos livros. Os signos do espetáculo se encarregaram de mostrar aos pais presentes, a importância da leitura no cotidiano da criança.


Espetáculo "Os Saltimbancos", pela turma Juvenil de Teatro. Espetáculo dirigido por Isac Flores. Foto:Vale Assessoria.

Encerrando o primeiro dia de mostra com o clássico “Os Saltimbancos”, a turma juvenil contou a história de seis bichos que lutam pela liberdade, lembrando ao público que a luta pela liberdade atravessa gerações. “Os Saltimbancos” ainda tocou na idéia de alimentar os sonhos mesmo diante de uma vida injusta.




Liberdade, aliás, foi um tema que reverberou na 5ª Mostra Culte. A segunda noite foi marcada pelo espetáculo “Curral Grande” (Leo Sandes) e “Canto e Grito Liberdade” (Vicente Di Paulo). O primeiro trata da criação de campos de concentração, no Ceará em 1932. O segundo fala da liberdade em perspectivas distintas, sobre fatos que marcaram o mundo e, de todo modo, histórias muito próximas da atualidade.


Espetáculo "Curral Grande", pela turma Juvenil-adulto de Teatro. Direção: Leonam Sandes. Assistente: Kendra Silveira. Foto:Vale Assessoria.

“Curral Grande” teve como participantes os atores e atrizes da turma juvenil/adulto e “Canto e Grito Liberdade” contou com a participação de um elenco adulto.

O texto “Curral Grande” é de autoria de Marcos Barbosa. Tenho consciência da adaptação para o espetáculo, mas a fruição me permite entendê-lo como um texto difícil. Sendo assim, as diferentes versões de um mesmo acontecimento foram apresentadas. A dinâmica do espetáculo por vezes era interpelada pelo silêncio, que trazia um desconforto ao analisar a situação trazida pela grande seca. O contexto da formação dos campos de concentração no Ceará trouxe à tona os vestígios daquele momento e a narrativa imprevisível potencializou o espetáculo, conduzida pelo humor em momentos pontuais e finalizando com a reflexão sobre a migração e como o Nordeste foi prejudicado.


A iluminação com lanternas e trilha sonora na cena do trem, trouxe a consciência para a qualidade de movimento de corpos em viagem. O figurino auxiliava o espectador a fazer a leitura das cenas, identificando as personagens.


E por falar em figurino, este, merece ser destacado em “Canto e Grito Liberdade”. O palco foi tomado por tons de verde exército, os corpos transitavam de um extremo ao outro do palco e a cor uniformizava o instante.


Espetáculo "Canto e grito liberdade". Direção: Vicente di Paulo. Assistente: Ariel da Mata. Foto: Vale Assessoria.

A presença cênica permaneceu do inicio ao fim, não existe uma definição para o conceito de presença, mas possibilidades que trazem essa noção à tona. A presença está relacionada em como você domina o corpo-espaço-tempo, e como o artista se relaciona com um emaranhado de informações como, o canto, o texto, o movimento, a dança, entre outros. Desse modo, a forma como o corpo se dispôs no espaço, o engajamento entre uma ação e outra, evidenciam a qualidade de presença. Fatores que ativam a noção de presença e que foi possível perceber no referido espetáculo:

(1) O olhar para travar a relação com o público e os pares;

(2) Consciência Corporal;

(3) Consciência da respiração;

(4) Domínio espaço-tempo;

(5) Qualidade técnica;


Deste modo, o espetáculo dialoga com questões da atualidade, voltando o olhar para a forma com que os corpos foram aprisionados em contextos diferentes. Em alguns momentos a cena é densa em outros ela é cantada, dançada, carnavalizada e todas elas para dizer: “É preciso cantar, gritar, falar!”


Participar deste momento de delicadeza e cuidado instaura novos modos de se relacionar, através do afeto, da memória e da fantasia com a compreensão de que esse espaço é um ambiente de exercício constante. Esse ciclo foi concluído e tão logo um novo florescerá. Assim sendo, desejos de vida longa e prosperidade a Cazazul Teatro Escola.

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