© 2023 por Arte Scaena. Orgulhosamente criado com Wix.com

Em mais uma edição, Mostra Culte promove o fomento e a valorização do Teatro em Vitória da Conquista

Atualizado: 23 de Dez de 2019

Há uma semana a CazAzul estava encerrando seu semestre letivo, com a 6ª edição da Mostra Culte - Mostra Cênica dos Cursos Livres de Teatro, que representa uma etapa imprescindível da formação em teatro: a experimentação dos desafios e prazeres do palco.


Desde a primeira Mostra, realizada em 2017, a CazAzul convida, para atuarem como críticos e críticas, profissionais que de alguma maneira lidam com cultura e arte em Vitória da Conquista, e que sejam entusiastas do teatro realizado aqui. E desde a primeira edição, a presença destes críticos convidados tem se mostrado extremamente relevante para nosso aprimoramento ético, estético e pedagógico, ao lançarem sobre as apresentações um olhar qualificado e atento, sempre com o objetivo construtivo de fazer nossas práticas cada vez melhores e mais relevantes social e artisticamente.


Na 6ª Mostra Culte, atuaram como críticos convidados a psicóloga e professora Dra. Carmen Virgínia, voltando sua atenção para a importância da prática artística na formação emocional das crianças e adolescentes, e Afonso Ribas, jovem e competente jornalista, militante das causas sociais e culturais, que avaliou o evento em aspectos técnicos, artísticos e de produção.


A CazAzul agradece pela generosidade de terem aceitado o convite, assistido aos espetáculos e produzido os textos que seguem abaixo publicados, cuja escrita acaba por interessar não apenas aos que subiram ao palco ou trabalharam nos bastidores, mas a todas e todos que apreciam o teatro, a arte e uma boa leitura! =)


Texto crítico 1 - Por: Carmen Virgínia


Na primeira noite da Mostra Culte tivemos os espetáculos Rua das Rosas, Antigas Cantigas: A Hora é Agora; e O Quiprocó. Contamos, também, com o espetáculo convidado O Conto do Boi.


O texto de apresentação da mostra, dedicado à Ariel da Mata – integrante da CazAzul Teatro Escola, foi carregado de emoção e sentimento. Foram estes os elementos disparadores para produzir o presente texto, em diálogo com as ideias de Vigotski (1965) em sua obra pouco explorada: Psicologia da Arte.

Turma infantil 2 com o espetáculo "Rua das Rosas". Fotografia: Álvaro Souza

O espetáculo inaugural da noite, Rua das Rosas (Texto de Claudia Scatamacchia e Fernando Lôbo; Adaptação e Direção de Yarle Ramalho), foi encenado por um grupo de sete crianças, sendo seis meninas e um menino, além de duas adultas. O espetáculo realça aspectos culturais através de cantigas de rodas tradicionais e explora a atuação do conjunto de crianças e do protagonismo de cada atriz e ator infantil. São crianças em novas compondo a Turma Infantil II com uma apresentação abundante em graciosidade, movimento e leveza que tiveram apoio no cenário e no figurino (neste caso, menos valeu muito mais).


Os textos lidos nos intervalos, além de situar o expectador quanto aos espetáculos da noite, sensibilizam a plateia para a compreensão da arte como mediadora da nossa existência e como componente afetivo do nosso fazer humano.


Turma infantil 1 no espetáculo "Antigas cantigas: a hora é agora". Fotografia: Lari Carinhanha

A noite avança e temos a Turma do Infantil I com o espetáculo Antigas Cantigas: A Hora é Agora (Texto de Adriana Amorim; Direção de Joanne Vale). Esse grupo, com crianças mais velhas – veteranas e iniciantes, sublinha a presença feminina no palco desta noite: sete meninas(!) e um menino. Desta vez as músicas de autoria conhecida dão o tom do espetáculo, explorando coreografias e uso de instrumentos. Diz Vigotski (1965) que nunca sabemos o por que de gostarmos ou não de uma obra de arte; neste espetáculo é essa a sensação, um gostar leve, colorido, com muito movimento e graça.


A atuação das crianças na noite evidencia a transformação dos seres humanos em criadores através do caráter subjetivo em cada fala. A direção dos espetáculos explora bem essa transformação, quando valoriza o tom que cada criança dá ao seu personagem.

Turma juvenil/adulto com o espetáculo "O Quiprocó". Fotografia: Lari Carinhanha.

Para encerrar a noite, "O Quiprocó" (Texto: Adriana Amorim; Direção: Priscila

Amaral) apresenta um texto que brinca em tom cômico com os elementos ficção e realidade, personagem e plateia, magia e ciência. A brincadeira do texto encontra solo fértil na atuação do grupo de atrizes e atores adultos que demonstra um bom entrosamento.


A Marcação fez a diferença e o divertimento foi garantido para todas as faixas etárias presentes no Centro de Cultura. Finalizo tomando de Vigotski (1965) o conceito de perezhivanie que ressalta as emoções como intrínsecas aos processos criativos. Foi assim a primeira noite da 6ª Mostra Culte: textos, direção e atuação leves e criativos, com o (des)equilíbrio entre estes ingredientes que faz da arte um processo para ser vivido mais do que entendido. Para ser melhor, só se começasse com a pontualidade que a arte merece.


** Carmen Virgínia - Professora Adjunta - UESB - Núcleo de Pesquisas e Estudos em Psicologia da UESB - NUPEP-UESBPrograma de Práticas Psicológicas - PROPPSI.

Texto crítico 2 - Por: Afonso Ribas


As luzes do palco do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima se acenderam na noite da última quinta-feira, 12, para mostrar ao público de Vitória da Conquista toda a potência artística das turmas infanto-juvenil e adulta dos Cursos Livres de Teatro da Cazazul. O resultado de um semestre de dedicação ao fazer teatral ganhou vida no segundo dia da 6ª Mostra Culte, que contou ainda com o espetáculo convidado “O duelo de Santa Maria”, do grupo CETA Capoeira.


Houve cuidado da Produção com os mínimos detalhes do evento, cuidado esse que, por conseguinte, não se restringiu ao espaço cênico, onde os atores dão vida aos seus respectivos personagens. Foi dada atenção também à forma com que o público foi recepcionado, ao belo roteiro escrito para ser lido pela mestre de cerimônia Rebeca Reis e até aos vídeos institucionais exibidos na Mostra. Como espectador, me senti gentilmente acolhido pela Cazazul antes, durante e após as apresentações teatrais.


Essa áurea de acolhimento é necessária para que possamos criar intimidade com a arte que nos dispomos a apreciar. Além disso, nos deixa mais abertos e sensíveis a tudo que ela é capaz de provocar: seja um caloroso sorriso, seja um choro descontrolado. E a emoção tomou conta da plateia antes mesmo de os atores se dirigirem ao palco, quando a força e a coragem de Ariel da Mata, homenageada do evento, preencheram todo o ambiente pelo segundo dia consecutivo.


Homenagem à Ariel da Mata. Fotografia: Érica Daniela.

Por Ariel, que se apresentaria naquela noite, a Cazazul intensificou todo o trabalho que culminou na Mostra Culte, disse Rebeca. Em cena, os atores formados pela escola demonstraram isso ao entregarem para o público espetáculos envolventes e de boa qualidade técnica. Merecem destaque, de forma geral, o excelente domínio dos textos encenados e a consciência do tempo e do espaço ocupados por cada personagem, aspectos essenciais para garantir uma peça coerente e verossímil.


Acredito que a atenção dos atores ao tempo de reação do público a alguns momentos de cada apresentação deva ser mais bem trabalhada. Por vezes, personagens iniciavam um diálogo que não se ouvia, pois a plateia ainda ria de uma cena anterior a ele. Isso foi mais perceptível no primeiro espetáculo da noite: Pluft, o fantasminha, apresentado pela turma infanto-juvenil da Cazazul, sob direção de Vicente di Paulo.

Turma juvenil com o espetáculo "Pluft, o fantasminha". Fotografia: Érica Daniela.

O predomínio da cor azul sobre o amarelo na iluminação da peça, em contraste com um plano de fundo obscuro, deu um tom perfeitamente fantasmagórico ao cenário no qual esse clássico da literatura infantil foi adaptado. O figurino, por sua vez, contribuiu para fazer o espectador se sentir de vez diante do mundo fantástico onde o divertidíssimo fantasminha Pluft e a pequena Maribel vivem as suas aventuras.

Impressionou-me a excelente interpretação da atriz mirim Amelie Santos Caribé, que protagonizou a peça, demonstrando segurança e grande preparo profissional enquanto aluna veterana da Cazazul. Vale destacar que sua ótima atuação, no entanto, não ofuscou o talento e o desempenho de seus companheiros de cena.


É comum que se perceba em um espetáculo uma maior maturidade de quem já faz teatro há mais tempo em comparação a quem acaba de ingressar nas artes cênicas. Esse contraste entre veteranos e estreantes, porém, não foi tão evidente na peça “O que você foi quando era criança”, encenada pela turma adulta, também sob direção de Vicente di Paulo.


Turma adulta com o espetáculo "O que você foi quando era criança". Fotografia: Érica Daniela.

A grande façanha dessa turma foi conseguir retratar com muita fidelidade, no palco do Centro de Cultura, o clima familiar e, ao mesmo tempo, decadente e mórbido que caracteriza o espaço onde se encontram as personagens da história construída por Lourenço Mutarelli. Esse feito, é claro, contou com a ajuda de um cenário detalhadamente bem planejado, de uma maquiagem que combinou com o sarcasmo, frieza e apatia das personagens e com uma iluminação simples, mas coerente com a proposta da peça.


O seu lento desenrolar, marcado ora por suspiros ora pelo silêncio das personagens, não a tornou entediante graças ao bom desempenho dos atores e, sobretudo, às boas sacadas humorísticas que garantiram um ar cômico à trágica história que encerrou bem a última noite da 6ª Mostra Culte.


O espetáculo convidado do segundo dia do evento, por sua vez, demonstrou a riqueza da cultura afrodescendente e celebrou a liberdade e a resistência do povo negro.

Espetáculo convidado "O duelo de Santa Maria". Fotografia: Érica Daniela.

Dirigido brilhantemente por Yarle Ramalho, “O duelo de Santa Maria” foi um belo exemplo de como a harmonia entre os diferentes elementos que compõem um espetáculo teatral podem torná-lo, verdadeiramente, hipnotizante e arrebatador. O ritmo, a energia e a presença mantida pelos atores do começo ao fim da peça mostraram, acima de tudo, o que há de mais genuíno na arte: o seu caráter formativo e transformador. Por isso, é preciso valorizá-la e fomentá-la. Em mais uma edição, a Mostra Culte deixa claro que a Cazazul cumpre bem esse papel.


** Afonso Ribas - Jornalista.

92 visualizações