Mostra cênica online - Uma experiência de reinvenção


Parte 1 – No meio do caminho tinha outro caminho


“Há uma mutação em curso no teatro. Pautadas em objetivos financeiros e

emergenciais ou no mero gesto criativo, essas iniciativas estão operando um

giro nas artes da cena: um giro viral." (Rodrigo Dourado, artista e educador)*


Em março de 2020 os cursos livres de teatro (Culte) da CazAzul** foram, como todo o resto de nossas vidas, atropelados pela pandemia. Cursávamos o segundo mês do novo semestre letivo, com turmas de crianças, de jovens e de adultos, com previsão de apresentação da mostra didática de encerramento (Mostra Culte) em junho.


No primeiro mês, sem saber a real proporção da paralisação das nossas existências, suspendemos todas as atividades e aguardamos a escuridão passar. O dia não veio. Mas veio a criatividade e a ousadia de tentar o novo, o estranho, o até então paradoxal: o teatro à distância.


Já em abril reorganizamos nossos horários e reinventamos nossos métodos. Contando com a adesão da maioria das professoras, professores e estudantes de teatro - desde a turminha de 5 anos (!) até a turma intermediária de adultos, demos continuidade ao Culte, agora online. Nesta nova realidade (de encontros virtuais, de afetos reais), buscamos manter as práticas possíveis – como os alongamentos, aquecimentos de voz, atividades de integração, exercícios de improvisação narrativa – e incorporar novas estratégias, algumas das quais já desejávamos há tempos utilizar, como debates teóricos mediados por obras audiovisuais e seminários de pesquisa, com os adultos, e releitura de experiências narrativas por meio de desenhos, com as crianças, para ficar em alguns exemplos. As limitações evidentemente foram muitas, assim como muitas foram as descobertas, sobretudo de potencialidades até então escondidas sob o conforto das rotinas artístico-pedagógicas já testadas e repetidas, por comprovadamente eficazes.


Sobre as frustrações e desafios destas novas vivências, as professoras e professores são os que com mais propriedade poderiam refletir, seguidos dos estudantes, os quais, é preciso sublinhar, embarcaram sem reservas nestas “sessões experimentais” e não se arrependeram, segundo seus próprios relatos e reações.


A gente nem bem começou e está sempre começando de novo. Estabelecidos os novos parâmetros pedagógicos e metodológicos dos nossos cursos, era hora de reinventar também a Mostra Culte, etapa final de cada módulo, em que as alunas e alunos de teatro vivenciam a mostra cênica pública, com todas as suas agruras e delícias; desde o frio na espinha do medo de subir ao palco pela primeira vez, compartilhado com os colegas no camarim, passando pelo desamparo de estar finalmente cada um por si, sem o apoio do diretor e sem a possibilidade de pausar e retroceder, a descoberta do apoio mútuo e silencioso do elenco em cena, o espanto de se saber duplo, ao mesmo tempo dando as réplicas e procurando a luz, buscando o gesto preciso e se lembrando do machucado na ponta esquerda da sola do pé, que de repente, ui, já foi, até a aclamação dos aplausos finais.

Sendo a apresentação pública uma etapa essencial prevista em nosso plano político-pedagógico, sem a qual, em nosso entendimento, o aprendizado teatral não se consolida, não poderíamos deixar que as restrições impostas pela pandemia nos furtassem esta descoberta. Se o teatro é a arte do encontro, é também a arte de encontrar o encontro onde quer que ele se encontre. No nosso caso foi assim:




Parte 2 - Desfazendo os nós. Refazendas.


“O eterno deus Mu dança”. / “Refazendo tudo. Refazenda.”

(Gilberto Passos Gil Moreira, artista e profeta)


1 – Para além de uma mostra, uma amostra do que conseguimos desenvolver até então. De como testamos nossa resistência humana, nossa existência artística, nossa

re-existência cênica. Amostra de uma síntese possível entre a tese do teatro e a antítese da internet. Um inarredável desafio. Um outro palco. Uma nova mostra. (A)Mostra Culte.


2 – Ante a impossibilidade da simultaneidade global do teatro convencional, a identificação das simultaneidades possíveis do teatro à distância. Dos atores e atrizes, no momento exato da gravação das cenas. Do público, no momento exato e único da transmissão.


3 – Adultos. O grupo do whatsapp transmutado em camarim, onde se compartilham o medo de errar a fala, as fotos dos adereços e maquiagens em elaboração, o apoio mútuo, os aprendizados e as ansiedades da estreia. Estreia em todos os sentidos, a inauguração de um novo modo de se encenar. Multi-tarefas. Cada qual cuidando de seu próprio cenário, figurino, luz e enquadramento, este ser estranho que de repente passou a fazer parte da prática teatral. A atuação síncrona e remota, o registro em take único e sem possibilidade de corte e repetição. Emular o palco e a vida.


4 – Crianças. O desafio de reter a atenção. Limites e afetos, com o teatro no meio. A reinterpretação dos elementos da linguagem teatral, num contexto novo, sem que o anterior tenha sido suficientemente conhecido. A ressignificação em segundo grau: redescoberta de signos que ainda não haviam sido descobertos. O trânsito no mundo simbólico e ficcional. Uma dramaturgia sugerida por elas próprias, burilada pela

professora/diretora. Um programa de auditório, com um entrevistador a costurar as participações remotas. Ao vivo, sem intervenção externa, apenas os pequenos aprendizes no “palco”, aprendendo a lidar com as questões que emergem da cena em curso. A naturalidade para lidar com o novo, porque nesta pouca vida tudo é novo para quem ainda não envelheceu o olhar.


5 – A equipe de produção lidando com tudo ao mesmo tempo agora. Escolhas. Riscos. Erros. A promessa do “nunca mais”. Acertos. A paz do “ainda bem que fizemos”. Não dá pra descer do carro em movimento. Quem não está confuso não está entendendo nada.


6 – “O meio é a mensagem”, Marshal MacLuhan ataca novamente. A definição da plataforma que será o palco habitado pelas novas atrizes e atores em formação. A gravação pelo Zoom. A transmissão pelo YouTube. Parâmetros de escolha: aceitação universal, inexigibilidade de um bilhete de ingresso controlando a entrada, acessibilidade a partir de variados dispositivos eletrônicos, contabilização de público e alcance. Permitir a chamada “transmissão ao vivo” de um evento já previamente gravado e que não ficará posteriormente disponível, sendo necessariamente fruído numa experiência coletiva e simultânea, efêmera e (por nossa decisão) irrepetível.


7 – O ritual da experiência teatral para o público. O chat ao vivo vira o lobby do teatro, com seus encontros e reencontros, oi, oi, como vai, tudo bem, minha filha vai se apresentar hoje, eu vim mas não conheço ninguém, já vai começar, expectativa, ansiedade, terceiro sinal... “No ritual, como no teatro, uma comunidade humana experimenta e reafirma sua identidade (...)”, nos diz Martin Esslin***, “(n)uma experiência coletiva de alto nível espiritual”. Um rito que se reafirma e se reinventa, inclusive com novos códigos de conduta, desejáveis ou não: comentar a peça enquanto ela se desenrola, sair e voltar para a sala de espetáculo, multi-telas como multi-janelas abertas para a simultaneidade do mundo. “Todo drama, portanto, é um acontecimento político: ele ou reafirma ou solapa o código de conduta de uma sociedade dada”. Aplausos presumidos; os intérpretes se curvam em agradecimento, num movimento dirigido ao vazio. A força ritualística do gesto final.


8 – Teatro. Arte-educação. Formação de plateia. Conexão. Afetos. Produzir belezas, faíscas pulsantes no breu. Quando a única certeza é a mudança: refazendas.




Parte 3 – Estar sendo, ter sido


“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente

é no meio da travessia.” (Riobaldo tatarana, intérprete do sertão)


Olhando daqui de onde vejo, penso que o teatro só pode ser esta arte de transformar em palpável o impossível. Na atual pandemia, em que os encontros estão impedidos de acontecerem, sobretudo os afetuosos e íntimos, como os artísticos muitas vezes são, é o teatro, entre todas as artes, a que tem mais profundamente se reinventado. As outras linguagens, claro que com algumas adaptações, conseguem manter sua natureza intrínseca durante o isolamento; o teatro, esta arte do encontro, da presença, do aqui-agora-irrepetível, para seguir existindo tem compulsoriamente buscado sua reinvenção. Ser o mesmo sendo outro. Estar sendo, ter sido.


Nossa experiência na (A)Mostra Culte Online, em que lidamos com a ressignificação das convenções e elementos da linguagem teatral, manuseados por quem ainda dá os primeiros passos neste aprendizado (que é, em última instância, a condição eterna de todes nós), foi de angústia, esforço, expectativa, criatividade, cansaço, alegrias,

criações, frustrações e descobertas. Pensando bem, uma vivência nem tão distante assim das mostras tradicionais, das experiências cênicas presenciais. As quais esperamos que retornem logo, claro, porque são insubstituíveis. Até lá, sigamos na reinvenção.


Hendye Gracielle

Produtora teatral

Gestora da CazAzul






NOTAS


* DOURADO, Rodrigo. Teatros na Pandemia: O Giro Viral. Abril de 2020. p.10.


** CazAzul Teatro Escola é um núcleo de produção cultural e teatral sediado em Vitória da Conquista/BA, que atua em diversas frentes relacionadas às artes cênicas, como formação de atores e atrizes, produção de espetáculos teatrais, gestão de projetos artísticos em empresas, escolas e outras instituições públicas e privadas.


*** ESSLIN, Martin. Anatomia do Drama. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p. 32

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