Novo Ano, Caza Nova (e o que a gente leva dentro da gente)

Por Hendye Gracielle*


O que a gente leva, quando deixa uma casa, a gente leva é dentro da gente.


Desde a primeira vez que abrimos a CazAzul para receber o público, em 1º de novembro de 2016, o que chamou a atenção foi justamente a integração com o espaço que nos acolhia. O que se deu naquele dia foi inesquecível, e talvez insuperável: foi uma festa de música, de arte, de encontro. Foi poesia oferecida - literalmente - nas paredes, nos degraus, nas vozes, nos gestos. Foi euforia de luzes e de sons: na gambiarra sobre o palco, iluminando os artistas, nas projeções feitas no muro, entusiasmando o público... Desde então entendemos o que talvez já fosse óbvio: que haveria uma íntima relação, simbiose quase, entre a Caza (escola e espaço cultural idealizado, que então se inaugurava) e a casa (edificação que nos abrigava e tornava palpável o sonho).


Foto: Erica Daniela

Daí em diante, a identificação com a casa só cresceu.


Os alunos se deleitavam em descobrir, aos poucos, cada recanto da casa, cada pintura ou mensagem pelas paredes, cada beco, colorido e aconchegante, cada novo cômodo, vasto e inesperado, aguardando vazio o preencher de suas criatividades...


O público se surpreendia sempre com as paredes do banheiro, forradas de recortes, reproduções de arte, homens, mulheres, personagens, ilustrações, poemas, composições... Belezas que surpreendiam quem ali entrava e se deparava não com o despojo e funcionalidade que se esperam de um toalete, mas encontrando nas paredes uma espécie de visão de mundo, um Aleph singular, uma carta pictórica de intenções.


A gente se reconhecia nas flores da roseira, nos hibiscos do quintal, no abacateiro que saltava o muro vizinho pra nos oferecer sua generosidade de sombra.


A CazAzul era a amplidão das salas de aula sem móveis, de paredes pretas e piso escuro; era o som serelepe do sino que anunciava a alegria de cada visita; era a versatilidade de uma lavanderia que, do dia pra noite, se transmutava em coxia, palco e camarim; era a brincadeira de cores que suavizavam o concreto; era o cheiro da madeira que exalava do chão e das paredes; a rebeldia das plantas que não se contentavam com o espaço dos canteiros, e espalhavam o verde sobre nosso azul.

Aí, de repente, vem o dia que a gente nunca espera que chegue. E coisas que a gente nem imaginava possíveis: amputaram o abacateiro, nos impuseram um ruído constante de obra, obstruíram nosso sol, erigiram sobre nossos caminhos, sem aviso e sem permissão, barulho, sujeira e indelicadezas de construção.


Por esses e outros motivos, migraremos; continuaremos semeando artes e liberdades em um novo local.


Confesso que é com um pouco de melancolia que deixamos agora esta casa da Travessa Otávio Santos. Não pode ser errado nem triste que nos sintamos assim. É, antes, um sinal espontâneo da importância, em nossa vida, deste nosso primeiro abrigo, desta casa que aprendemos a amar e onde tanta gente se amou.


Foto: Rebeca Reis

Não duvido nem por um segundo que a CazAzul levará, para onde quer que vá, isto que já está dentro da gente: a alegria, o aconchego, a versatilidade, a brincadeira, a disposição para o aprendizado, a rebeldia e, sobretudo, o amor.


E também que descobrirá em novos espaços outras lindezas das quais se orgulhar, outros desafios para se fortalecer, outros carinhos a oferecer.


Um paradoxo (apaixonante) da CazAzul é ser multicolorida, embora se declare azul. Outro, que postulamos agora: é ser essa caza que descrevi, de amor e de arte, de beleza e liberdade, independente da casa onde estiver.

Avenida Rosa Cruz, 855: evoé, aí vamos nós!




*Hendye Gracielle, diretora administrativa da CazAzul Teatro Escola.

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