Por que eu chorei em Pariré

Por Adriana Amorim


Hoje eu tive uma certeza: Eu quero morrer dentro de um teatro. Não precisa ser em cima do palco, como Cacilda Becker. Pode ser na plateia mesmo...


Esperando pelo começo de Pariré, eu fiquei olhando pra dentro daquele palco, vislumbrando aqueles elementos todos, os urdimentos próprios daquele universo que me é tão especial e indispensável. Subi pelas pernas do palco e me peguei olhando praquela bambolina, praquelas varas e refletores, aquele espaço tão meu, tão aconchegante, no qual eu me reconheço tanto. E me acometeu essa certeza: eu quero morrer aqui. E por “aqui” nem eu mesma sabia se dizia “debaixo daquele urdimento” ou “na cadeira da plateia”. Agora, passadas algumas horas, tenho certeza que o aqui era simplesmente “no teatro”.


Pobre de mim. Nem desconfiava daquilo que me aguardava e já estava assim, com profundos sentimentos filosóficos. Ninguém me avisou sobre o que tratava Pariré. Ninguém me preparou praquilo. Ninguém. Parece um segredo, um acordo tácito, uma convenção. Muito se fala do quanto o espetáculo é maravilhoso, mas quase nada se comenta sobre seu conteúdo, sobre sua investida temática ou sobre os rastros que deixa em nós. Mas, deixem-me quebrar a corrente do silêncio que paira sobre Pariré. Deixem-me falar dele, por favor. Permitam-me falar do quanto e do porquê eu fui atravessada e dilacerada por aquela poesia.



Há duas coisas que me fazem chorar profundamente numa obra de arte, geralmente música, filme ou peça de teatro. Uma delas é o tema e o trato dele. O assunto, a história, a identificação com algum personagem. Aí eu choro por aquela história contada, mais do que isso, aquela história vivida diante de mim. Como disse, choro pelo tema. A outra razão que me faz chorar nessas ocasiões e que geralmente amplia o choro exponencialmente é a comoção que me causa o trabalho dos artistas que fizeram isso. Aí eu não paro mais de chorar. Eu me comovo com o fazer artístico. Fico besta, passada. Aconteceu assim quando eu vi o filme "Piaf - Um hino ao Amor". Eu chorava por Edith Piaf e por Marion Cottilard. Pela história da primeira e pelo trabalho primoroso da segunda.

E isso aconteceu de novo hoje, com Pariré.

Eu não sei se aconteceu com mais gente. Eu não sei se eu sou uma síntese de tudo aquilo que foi colocado em cima do palco ou se, ao contrário, tudo aquilo é uma síntese de mim. Ou os dois. O que eu sei é que vi uma tradução de boa parte das infinitas angústias que me assolam. Porque ali, naquela peça, todos os assuntos foram transformados em um só. Talvez por isso ninguém consiga, enfim, dizer sobre o que é Pariré. Porque quando a gente tenta falar que é sobre um tema específico, não é. Vai falar que é sobre a maternidade? Não é. É mais do que isso. É sobre gerações? É mais. É sobre amadurecimento? Também não é só isso. É sobre passado, presente, futuro? É sobre o tempo? É sobre o lugar? Não. Sim. É sobre tudo isso. Mas aí você vai dizer que é uma peça sobre a vida? Ué, toda obra não é isso, ao fim e ao cabo? O que é ser uma peça sobre a vida? Defina vida... Entendem a confusão? Pois é...


Mas peraí. Eu tô aqui digressando sobre do que fala a peça Pariré , mas eu esqueci de dizer um detalhe. Pequenininho... Mínimo:

Não se fala em Pariré. Ninguém fala em Pariré.

Pariré é assim: uma peça sem palavras.

Sem palavras.



Mas as imagens... Ah, as imagens. Elas. Foram elas que me arregaçaram. Foram aquelas sínteses cruéis e certeiras. Aqueles pés pesados como o mundo, aquelas asas leves como alma. Aquela gaiolinha feita para o enxoval. Aquele espantar de pernilongo insistente, como marcas do incômodo e do cuidado. Aquele mosquiteiro rasgado... Aquelas tamanquinhas com ferra-duríssimas. Aquele bercinho (des)montável. Todas as memórias sendo transplantadas, tornadas mais uma vez experiência, passadas de uma mãe pra outra. Aquela tradução imagética do que é um filho: uma bola branca: perfeita, como só os círculos são perfeitos, sagrados e místicos. Sem ângulos e sem arestas, sem começo nem fim. Plenos como o branco, que não é cor, mas que reúne em si todas as cores. Assim são os filhos. Assim suas mães os vêem. Perfeitos. Completos. Nossos filhos. Nossos. Nossos? Cadê a bolinha?


A filha tornada mãe.

A chave na peça.

A chave da peça.

As teias de aranha.

A asa apreendida.

A asa escondida.

A asa revelada.

A mãe tornada filha.

A chave.

A chave.


Hoje eu chorei em Pariré. Chorei por mim, por todas as "eus" que eu fui, sigo sendo e serei. Chorei pelas vezes em que estive grávida e carreguei aquela bola imensa no meridiano de mim. Chorei pelos partos dolorosos e desafiadores que vivi. Chorei pelas vezes que chorei de alegria ao ver cada um de meus bebês dormindo em paz em seus bercinhos, carregando todo o mistério do planeta em recipiente tão frágil, que é o ser humano. Chorei pela minha filha que voou pra longe do ninho, como eu voei um dia. Chorei pelos filhos que ficaram e alegram meus dias num cuidado tenro e inconsciente. Chorei pela minha avó que colhe os cuidados que plantou em catorze filhos espalhados pelo país. Chorei pela alegria e beleza que minha mãe exala. Chorei pelos pés de gesso que querem me prender a um lugar. Chorei pelas teias de aranha e pelos cabelos brancos, pelas costas arqueadas, pelos gases fétidos, pela necessidade e desejo de atenção, pelo medo da solidão. Chorei por minhas asas brancas que já voaram tanto e aos poucos se enegrecem. Chorei porque já pari muito nessa vida. Chorei porque pari a mim mesma.

Chorei porque parir não é moleza.

Chorei porque parir é assim.



PS: Não tive condições de fazer uma análise da peça, nem falar de seus elementos constitutivos, como as performances sempre dilacerantes de Kécia Prado e Ricardo Fraga, nem da direção delicada e fulminante de Gilsérgio Botelho, nem da luz e da trilha sempre precisas na construção de um espetáculo da Operakata. Hoje eu só tive condições de falar de mim e do que eu me tornei depois de Pariré.


PARIRÉ - Cia de Teatro Operakata


Direção e cenografia: Gilsérgio Botelho

Elenco: Kécia Prado e Ricardo Fraga

Figurino: Kécia Prado

Luz: Rayza Lelis

Produção: Kétia Damasceno




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