Por que ontem, por que sempre, por que ela? POR QUE HÉCUBA

Atualizado: 8 de Jul de 2019

ADRIANA AMORIM*



Eu já tive o prazer e a honra de ver em cena grandes atrizes. Laura Cardoso, Arlete Sales, Maria Alice Vergueiro, Kécia Prado, Iami Rebouças, Marieta Severo, Andreia Beltrão, só pra citar algumas que lembrei numa busca muito breve e irresponsável pela minha memória. E essas foram, sem dúvida alguma, experiências inesquecíveis. Mas não tenho receio nenhum de afirmar que nada, absolutamente nada se compara ao que pude experimentar ontem ao ver em cena Chica Carelli como a matriarca protagonista do avassalador espetáculo “Por Que Hécuba” dirigido por Márcio Meirelles. Escrevo agora esse texto, tentando juntar os cacos que restaram de mim depois daquele atropelamento.


Certamente o contexto da fruição em muito interferiu para potencializar a experiência. Estando eu fora de Salvador há sete anos, depois de “ter sido soteropolitana” por quase quinze e tendo realizado aqui minha formação acadêmica completa e boa parte da minha formação estética, regressar à Cidade da Bahia e visitar-lhe a vida cultural e artística é sempre uma grande emoção, para dizer o mínimo. Andar, agora como turista, pelas ruas nas quais quase me vejo com um espectro que vagueia com o fardo dos problemas cotidianos a pesar nos ombros, que olha absorta para o horizonte pelas janelas embaçadas dos ônibus, que sai dos mercados, pega os filhos na escola... toda essa história vivida que passa diante de mim, me converte numa observadora sui generis da cidade. E ontem foi um desses dias. O contato com o universo peculiar do Porto da Barra durante o dia, a passagem pelo circuito Avenida Sete/Carlos Gomes/Passeio Público para chegar até o templo do Teatro Vila Velha se revelaram num cuidadoso prólogo do espectador, algo que viria a potencializar a característica “pessoal e intransferível” da experiência de fruição. Sentada naquela poltrona, esperando o começo do espetáculo, eu já era uma versão inédita e especial de mim mesma.


Começado o espetáculo, logo se revelou sua potência. Um elenco que, apesar de numeroso e jovem, demonstrou de cara uma força cênica e uma conexão fundamentais para estruturar a base na qual seria erguida a fortaleza donde se veria surgir o núcleo da história, donde se daria o desfile do mito. Música e imagens iam criando a atmosfera para o que aconteceria diante de nós nas duas horas seguintes. Loiá Fernandes, a jovem Meniki Marla e o experiente Lúcio Tranchesi deixam claro que o elenco sabe o que faz e vai se revelar um dos grandes responsáveis pela grandiosidade daquele evento teatral. Tudo bem até aí. Eu já estava nas mãos deles. Entregue.


Mas, eis que surge ela. Uma rocha, uma tocha. Um acontecimento. Voz de trovão, olhar de águia. Anunciada por dolorosos uivos de cadela ferida, surge Hécuba. Eu não sabia quem era a atriz. Não recebemos o programa da peça na entrada, de modo que fiquei me perguntando: “É Chica?” Mais magra, mais envelhecida do que a Chica da qual eu me lembrava, quando frequentadora do Vila e mesmo como participante do projeto “O que Cabe Nesse Palco” no distante ano de 2002, oscilei entre a razão que buscava reconhecer-lhe os traços e o sentimento de quem acompanhava a história. Sim. Era Chica. Era a grande Chica Carelli, maior do que sempre.

Dali em diante, deu-se o estrago em mim: invadida por todos aqueles elementos cênicos magistralmente ordenados por Márcio Meirelles, esse mestre incansável em sua melhor forma, eu já girava tonta alternando entre o impacto sensível dos estímulos e a consciência do discurso político e do manifesto humano que se desenrolava em minha frente. As críticas, as denúncias, as metáforas (ora sutis ora evidentes) não davam descanso ao espectador. A consciência rítmica cuidadosamente construída para não perder o espectador, o tempo de manutenção de cada sentimento provocado na plateia. O equilíbrio perfeito entre o dionisíaco e o apolíneo, através do pleno domínio das ferramentas próprias do teatro, assunto e meio daquele exercício.


E no centro de tudo, ela: Não apenas quando demonstrava sua força e dor, mas também (e talvez mesmo, sobretudo) quando era doce, leve, serena, se é que se pode falar desses atributos naquele contexto. Quando falava baixo, mais do que isso, quando sussurrava, sentada, aparentemente inerte, era quando ela mais me atravessava.


Dois momentos foram para mim incomparáveis, inesquecíveis, indizíveis: Quando ela recebe seu filho Polidoro e conversa com ele com a serenidade de uma rocha que só as mães (e possivelmente só as mães que já velaram um filho) possuem. E depois quando ela, ainda e sempre como mãe, nos conta a história da criação do mundo, nos revela que fomos urdidos sobre a marca indelével do amor e se pergunta, inconformada, por que tanto ódio? Por Que, Hécuba? Eu também sigo me perguntando...


Daí, meio inerte, me restou ir ao camarim. Cumprimentar o elenco, entre amigos, conhecidos e desconhecidos, experientes e iniciantes. E encontrar-me com ela. Chica Carelli. Dar-lhe um abraço sincero de gratidão, verter-me em lágrimas pela felicidade de ter estado ali, naquele momento e lugar, de compartilhar de tal profissão, essa que nos rasga e nos convoca diária e inapelavelmente. Dizer parabéns era tão pouco. Era quase constrangedor. Apenas agradeci, porque tenho pra mim que depois do amor, de quem deve ser irmã, a gratidão é o maior sentimento que existe.


Por isso, sou grata a toda a equipe de artistas envolvida nesse projeto. Ao grande mestre Márcio Meirelles, de quem sempre fui declarada admiradora, da pessoa e do artista. Ao Teatro dos Novos, à Universidade Livre Vila Velha - dois projetos necessários, para dizer o mínimo. Inspirações para essa CazAzul que tenta dar vazão a tantos desejos meus de seguir vivendo essa sina de ser artista.


Chica Carelli, ontem eu vi a maior e melhor performance de uma atriz. Por isso e por tudo o que isso significa, obrigada. Dezenove vezes. Vinte vezes. Obrigada.



*Adriana Amorim é doutora em Artes Cênicas pela UFBA, e idealizadora da CazAzul Teatro Escola.

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