Não é mera coincidência

Atualizado: Mai 27

Adriana Amorim

“Queria olhar para o futuro e ver algo melhor do que um presente piorado”

(Lourenço Mutarelli )

Uma gripe que vem da China, se alastra por todo o planeta, causando pânico e terror. Um programa cruel de demissão voluntária. Isolamento social. Quarentena absoluta. Letalidade para idosos. Aeroportos e fronteiras fechadas. Há apenas quatro meses, em dezembro de 2019, na 6ª Mostra CULTE, a Turma Adulta dos Cursos Livres de Teatro levou ao palco principal do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima em Vitória da Conquista, esta que era, até então, considerada uma história fantástica, herdeira direta do Teatro do Absurdo. Dirigida com precisão por Vicente di Paulo, a peça escrita em 2007 por Lourenço Mutarelli “O que você foi quando era criança?” quando reassistida (pelo canal do youtube da CazAzul Teatro Escola) no contexto atual, chega a assustar. É certo que muitas peças de teatro quando revisitadas se revelam extremamente atuais. Mas essa… neste momento exato, é realmente impressionante.

Espetáculo "O que você foi quando era criança". Direção de Vicente di Paulo. Na 6ª Mostra Culte. Foto: Erica Daniela

Sabendo que a arte antecipa futuros, seja por utopias que após muita luta social se tornam realidade ou por distopias que lamentavelmente se confirmam, ficamos diante da inquestionável certeza de que na história da humanidade, a arte é perene: vem primeiro, fica durante e permanece depois. Anunciando o futuro, testemunhando o presente e ressignificando o passado, ela se configuraria perfeitamente como um mundo paralelo ao mundo real… se com ele não se chocasse tantas vezes.

Shirley: "Eu tenho medo dessa gripe." Foto: Erica Daniela

A assustadora “coincidência”, porém, não se resume ao vírus da gripe Chinesa. Não. Há muito mais em cena. Escrito em 2007, o texto traz como personagem um insano misógino que acha que é o próprio Messias. Se assustou? Eu também. Um palhaço desempregado e uma mulher invisível se juntam ao rol de personagens proféticos. Ora, não precisa muito esforço para “não vermos” a mulher ausente do atual governo, dos cargos de poder, das esferas decisivas, depois do golpe de estado que destituiu da Presidência da República, a primeira mulher eleita pelo povo para o cargo. É eloquente também a imagem contida na metáfora do palhaço desempregado. A precariedade da indústria cultural, o abandono do artista à própria sorte, os sucessivos cortes de verbas para o cinema, teatro, música e tantas outras linguagens artísticas. É o próprio fechamento do circo, a morte do elefante e o abandono definitivo do palhaço.

“O que você foi quando era criança” é uma pergunta que, apesar de não ser feita ao longo da peça, invade insistentemente nossas cabeças. No desfile de tipos esdrúxulos, de pessoas adoentadas, acometidas pelos mais diversos males que vão desde uma simples covardia até a mais dolorosa solidão, ecoa a pergunta: “O que terá sido feito a cada uma dessas figuras, em seus passados, em suas infâncias, para terem chegado a onde chegaram, para terem ficado assim como são?” No catártico final da peça, com algumas dores reveladas, instaurada a absoluta incapacidade de respirar, sonhos da distante infância relembrados, sentimos que há algo de errado no ar… E não é apenas um vírus.

Espetáculo "O que você foi quando era criança". Direção de Vicente di Paulo. Na 6ª Mostra Culte. Foto: Erica Daniela

Na dúvida, minha gente: Arte. Na certeza: Arte. Na infância, na juventude e na velhice: Arte. Na saúde e na doença. Para que a gente tenha condições de ler a vida. Para que a gente tenha condições de prescrever, transcrever e reescrever a nossa história: Arte. Para que a gente consiga ficar em casa enquanto for preciso: Arte. Para que a gente reconstrua um mundo para o qual valha a pena voltar depois da quarentena: Arte! Antes que seja tarde: Arte. Ontem, hoje e amanhã: Arte. Arte, arte, arte.

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