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Uma feira como potência

No meio da pedra, tinha um caminho

Não chega a ser original a máxima que venho proferindo ao longo dos últimos anos sobre datas importantes no nosso calendário anual. Quem me ouve balança a cabeça, sorri e às vezes até estala os dedos, como quem encontra uma boa ideia, concordando com minha sentença: “Há os que esperam o ano todo pela chegada do carnaval. Há os que preferem as festas juninas. Há os que anseiam pela chegada do Natal. E tem eu, que espero pela Fligê".


Há algo de mágico nessa Feira Literária. Do momento em que me certifico de que vou participar até a viagem de ida, pelas transformadoras estradas da Chapada Diamantina, tudo me toca, tudo me atravessa, tudo me melhora. Preparar-me profissionalmente para ela envolve dedicação, pesquisa, empenho. Mas o preparo emocional, pessoal e particular, ah... esse beira o sagrado. A minha alma sabe que vai pra Mucugê. Ela sente que o momento está chegando. Ela (pre)sente o cheiro de pedra.


E eis que empreendemos a tão esperada viagem. Estar na Chapada é girar o botão, é deixar-se curar pela natureza, pelo ar gelado e puro, pelas delicadezas de sua cultura, pela hegemonia da pedra. Grandes e imponentes rochas jurássicas nos avisam que estamos chegando. Disciplinadas plantações de café compõem a paisagem.


Gigantescas e seculares como as rochas que assistem a história passar ou miúdas e incontáveis como os pedregulhos que gemem sob nossos pés, as pedras assistem à nossa chegada: nas paredes das casas, nas pontes, nos muros, nos balcões de bar. Molduras, porta-joias, colares, anéis. Por todo lado, a pedra se impõe. Tudo em Mucugê nos “apedrece”. Buscamos, imediata e incessantemente, por uma cachoeira, essas pedras que choram por anos a fio, para que Oxum nos massageie os ombros que parecem carregar o mundo. Para que nos lave a alma.




E eis que em 2018 as pedras de Mucugê nos apontam um caminho de literatura e resistência. Conceição Evaristo, essa que há tanto tempo já nos diz das lindezas de sua dura caminhada (pela noite escura), ao subir para agradecer pelas justas homenagens, nos arrebata com sua majestade e nos oferece, ela mesma, pequenas pedras preciosas:


Sobre a obra composta por João Omar e Elton Becker, inspirada em sua obra, executada em sua presença e entregue a partitura:

“Vocês me deram motivo de escrita. A música ultrapassa fronteiras. Ela exprime a dor. Não há música sem corpo. O corpo na música é a dança. (...) A literatura é estática. Mas é o que eu sei fazer!”

Sobre a universalidade de sua literatura:

“Na literatura universal há textos lindo que até me emocionam, mas nos quais eu não me caibo. (...) ao ver que o meu texto contaminava várias pessoas: homens, mulheres, negros, brancos, jovens, pessoas maduras, eu fui percebendo que esse texto seduz, que ele convoca a todos e todas, independente de sua experiência, que ele toca a universalidade dessas pessoas, eu me dei conta: quem está fazendo literatura universal somos nós!”

“Eu sinto muita alegria em ver tantas pessoas lendo meus textos. Ver uma garota de 15 anos me agradecer pelas palavras que escrevo é emocionante. Eu fico muito feliz. Ninguém escreve para si só. Não me venham com essa. Se publicou, é porque quer ser lido.”

E encerra, digressando sobre o silêncio:

“Eu gosto de pensar o silêncio não como mutilação ou ausência da voz. Eu entendo o silêncio como potência. O silêncio como lugar de estratégia de criação, como tática. Nem sempre se pode dizer agora. Nem todos vão poder escutar. Então a gente faz silêncio. Ou geme. O gemido é o momento da criação. O silêncio nem sempre é esquecimento. É a espera do melhor momento para se dizer.”

Pois eis, que em meio a toda essa beleza, a tanto encantamento e aprendizado, a Fligê ainda me reservava mais: naquele centro cultural lotado de mulheres lindas, negras, fortes, com sorrisos ora largos, ora serenos, ouço, ao meu lado, baixinho, uma voz doce. Botei atenção. Era uma mãe, muito jovem, que respondia à filha que, vendo a imagem do fundo do palco, perguntou à mãe porque ela estava suja. A jovem mãe, paciente, tranquila, com muita ternura e sem esboçar nenhum traço de julgamento ou repreensão ao comentário da filha, explicava que ela não era suja, que aquela era sua cor, a cor negra. Que elas mesmas eram negras também. Explicou calmamente que aquela era Conceição Evaristo, uma grande escritora, que tinha a pele um pouco mais “aterrada” que a delas, mas que era, como elas, negra. Todas elas lindas. A menina sorriu. Estava aberta a Feira Literária de Mucugê 2018!


Quem tiver ouvidos que ouça. As palavras, as pedras, o silêncio.


Adriana Amorim

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